Sep 16, 2020 • 1HR 10M

{#1 o outro - Julia Raiz} A primeira convidada a se "confessar" no divã do L.C.

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Revelando a interioridade de nosso eu mais profundo através de longas e íntimas narrativas contadas em primeira pessoa; por mim, Larissa Xavier, e por quem quer que queria se confessar. Porque somente a escrita pode libertar o que a vida faz aprisionar.
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Eis que estreamos hoje a sessão “O OUTRO”, onde convidados se confessam, e revelam suas interioridades em nome da Literatura, em nome de nossa humanidade. A primeira convidada a abrir com chave de ouro é a Julia Raiz, escritora com dois livros publicados, além de também comandar o podcast “Raiz Lendo Coisas”. Aperta o play!


Olá você,

Uma das maiores qualidades da Literatura, como arte, é a possibilidade de conectar corações partidos, almas perdidas, corpos imcompreendidos, talvez nunca vistos antes; através das palavras. De transformar sentimentos que pareciam isolados, em vejam só, corriqueiros.

Quando eu ainda estava concebendo este projeto, algo que sempre quis desde o início era que ele tivesse, claro, muito de mim, mas também que ele tivesse muito do outro, consequentemente tendo muito de nós todxs. Afinal, “eu sou eu e eu sou o outro também”. O que nos une e o que nos separa é exatamente as vulnerabilidades e as potências de cada um. E só dando a chance para outros se confessarem que essa máxima poderia ser alcançada.

Então, eis que estreamos hoje a sessão “O OUTRO”, onde, sempre que possível, receberei convidados que se disporão a se revelar, em revelar suas interioridades em nome da Literatura, em nome de nossa humanidade.

A primeira convidada é a Julia Raiz, que tive o prazer de conhecer/encontrar através das redes sociais e que, tão gentilmente, topou ser a primeira a se confessar no divã literário que é o Literatura Confessional.

Seja bem-vinda Julia, o prazer é todo nosso. <3

Larissa Xavier // Literatura Confessional

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Com vocês, Julia Raiz, se confessando em:

I. ARBUSTOS

Sentada na minha cama, eu penso por que as mulheres preferem escrever sobre animais, enquanto os homens dão claros sinais de que a única matéria que os interessa é a arrastada decadência da civilização humana. Ouvi num programa de rádio que a contribuição das mulheres para a sociedade é a própria sociedade. É possível sentir os nós insondáveis que aproximam mulher e bicho? Por que nos dobramos, pernas para cima, para nos encararmos de frente, montanha de pelos? Antes de eu aparar os meus pelos parecia que não tinha mais vagina, era apenas um pequeno bosque no lugar do sexo, um bicho encolhido hibernando. Sonhei, há alguns dias, com um gato no congelador, congelado enquanto dava o próximo passo. Hoje esse gato move-se dentro da geladeira, arranha o homem que abre a geladeira como se protegesse seu território. O homem me diz: o gato é seu, lide com isso! Eu tenho medo de abrir a geladeira e lidar com ISSO. O gato congelado era da minha irmã, esse gato se movendo é meu, pior, é minha também a geladeira. A cada dia eu escrevo menos, jogo com uma linha, sou displicente, prematura, abro o forno antes dos trinta minutos permitidos para enfiar o garfo na massa ainda mole do bolo de maçã. Minha cozinha cheira a bolo de maçã. As maçãs são as frutas prediletas do cavalo ou isso é só coisa de televisão? Se um aluno entrasse na minha sala e colocasse uma maçã em cima da minha mesa, meus olhos rolariam espontaneamente, talvez eu até suspirasse fundo.

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II. SELO

Existe sempre alguma coisa mais verdadeira acontecendo fora do nosso alcance de visão, no momento que uma estrela se apaga é porque ela já não existia e não existia também o fim de uma luz, existe apenas a transformação que escapa à nossa percepção, existe o presente que nunca fomos capazes de captar. Esse diário foi escrito no tempo entre a experiência que temos da estrela e o momento em que não podemos mais ver nada, apenas escrever sobre o que se passa fora da nossa visão. Esse diário fala de uma mulher e de um cavalo que não são nem a mulher e o cavalo que estão aqui diante dos nossos olhos e nem a mulher e o cavalo que vivem na nossa cabeça, esses animais estão juntos na sua singularidade e no que eles compartilham com os outros singulares mulheres e cavalos, essas criaturas cujos corpos estão fora do alcance dos nossos olhos e chicotes. Quando eu sopro, também sopra o vento que mexe a camisa de algodão lá fora, quando eu sopro também sopra a mulher e o cavalo juntos antes de se apagarem para se transformar em coisa outra.

Julia raiz é escritora com dois livros publicados "A Mulher e o Cavalo” (2017, Contravento editorial) e "P/ vc" (2019, Editora 7 Letras). Ela também edita a Totem & Pagu, a firma de poesia, além de ser parte do coletivo Membrana Literária.

Acompanhe o trabalho da Julia:

Recomendações da mesma:


Obrigada por nos ler/ouvir até aqui. Te vejo na próxima confissão. <3

Larissa Xavier // Literatura Confessional

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