Jul 15, 2020 • 12M

{Confissão #1} Escrevendo sobre si próprio: tornando público o que é íntimo.

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Revelando a interioridade de nosso eu mais profundo através de longas e íntimas narrativas contadas em primeira pessoa; por mim, Larissa Xavier, e por quem quer que queria se confessar. Porque somente a escrita pode libertar o que a vida faz aprisionar.
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Tá vendo esse botão “play” aí em cima? Ele é pra você que está sem tempo de ler o textão abaixo – ou que está com preguiça mesmo :P. Então, ouça esse conteúdo ao invés de ler. Mas sem desculpas pra deixar esse email de lado, ok?


Olá, você.

Esta é oficialmente a primeira newsletter do Literatura Confessional. Bem, acho que as coisas estão ficando sérias por aqui. Pra mim, no caso que, finalmente, está comprometida em desbravar o mundo literário e, por consequência, fazer com que minhas palavras sejam lidas e ouvidas por mais pessoas. Novamente, meu muito obrigada por apoiar este projeto.
Muitos do que estão me lendo ou ouvindo, me conhecem pessoalmente, mas para além deles, quero que você aí, que ainda não me conhece propriamente, possa de alguma maneira conhecer um lado que eu aprecio e tenho muito orgulho de possuir: o da escrita. Espero que todas as narrativas aqui tão intimamente reveladas, possam servir tanto de inspiração quanto de motivação. Essa é a missão do Literatura Confessional; fazer da minha voz, poesia para seus ouvidos; fazer dos meus escritos, acalento para seu coração.

Larissa Xavier

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PS: O Literatura Confessional está no Instagram e no Medium. Nos vemos lá também.


Escrevendo sobre si próprio: tornando público o que é íntimo

Quando se compartilha pensamentos, memórias, desejos, reclamações, caprichos – ou ainda medos, incertezas e confusões – mãos se cumprimentam e mentes se conectam, ainda que em nosso imaginário. Por Larissa Xavier

Todas as formas de escrita são válidas sejam elas romances, dissertações, manuais, ou textão no Instagram. É colocando em palavras que a humanidade tem conseguido se expressar e, principalmente, criar vínculos.

Acredito piamente que escrever e qualquer outra forma artística liberta o que nossa alma aprisiona no decorrer de nossas vidas. Ela, ao mesmo tempo, é uma válvula de escape, um esconderijo, um refúgio, onde o escritor se sente salvo, vivo. Ou ainda em um flash, ela é a luz que traz a ressurreição aos que, por ventura, estiveram mortos de alguma maneira. Escrever em primeira pessoa, por outro lado, não somente desvenda a interioridade do autor na intenção de criar um vínculo exterior, como também, o ajuda a manter uma relação consigo mesmo quase que como uma terapia, onde ele é o terapeuta e o terapiado.

A minha relação com a escrita começou por volta dos 12 anos quando eu ganhei meu primeiro diário onde compartilhava instantes que não poderiam cair no esquecimento. Eram segredos absurdamente ingênuos, sentimentos profundamente questionáveis; esperanças destruídas, chances inesperadas. Em suma, tudo que só cabia ser sentido ali, por escrito. Na adolescência, ganhei o gosto definitivo pela leitura (principalmente poesia) e por autores que se tornaram tão influentes quanto meus amigos da época. Por causa deles, então, passei a divagar e a viajar sobre minha vida e o mundo afora no papel. 

Por eu nunca ter me considerado uma pessoa com uma imaginação digamos 
“vasta” (para criar personagens ou outras realidades), refletir sobre minha própria vida sendo o personagem principal em constante construção e observação, acabou virando minha pauta/essência na escrita desde então. 

Inegavelmente a psicologia e a filosofia “do eu” sempre me atraíram também. Então, é comum que eu passeie frequentemente em outros “eus” por aí que não os meus (afinal, somos muitos). Isso acontece um pouco por precisar de ar fresco, um pouco por precisar de vivência extra que, por vezes, não pode ser obtida por mim mesma.

Engraçado que eu sempre adorei imergir em pensamentos e sentimentos alheios a ponto de tentar “adivinhar” como alguém reagiria/se sentiria em determinada situação; ao invés de perguntá-las diretamente. Claro que tudo isso acontece dentro da minha cabeça: entre altos voos e quedas livres de minha mente inquieta. 

O que o outro pensa, sente, deseja naturalmente acaba se voltando para mim. O que EU penso, sinto, desejo, oras, sobre isso e aquilo? Capaz que esse devaneio todo seja coisa de lua libriana – a equilibrista do eu e do outro. 

De todo modo, ainda quando tentava inventar narrativas, acabava confessando verdades.

“Na minha vida, tem confissão que vira história e história que vira confissão. Portanto, aconselho a mim mesma: tem verso que nasce, vive e morre dentro do texto, como poesia. E ninguém nunca vai saber como faço pra esconder as evidências”. {verso autoral, Junho de 2015}

No mais, talvez ou muito provavelmente, decepções amorosas e comportamentos alheios dos quais eu nunca consegui entender muito bem fizeram com que eu me voltasse pra dentro, e assim começasse a investigar em mim mesma o que no outro era uma incógnita.

Escrevo, logo existo.

Philippe Lejeune (lejune), em O Pacto Autobiográfico, colocou muito bem que: 

“O papel é um espelho. Uma vez projetados no papel, podemos nos olhar com distanciamento. E a imagem que fazemos de nós tem a vantagem de se desenvolver ao longo do tempo, repetindo-se ou transformando-se, fazendo surgir as contradições e os erros, todos os viéses que possam abalar nossas certezas”.

Escrever sobre si próprio, portanto, não significa, necessariamente, que seja um processo mais fácil ou que tampouco mostre a segurança de alguém acerca de si mesmo, pelo contrário. É exatamente a busca por sentir-se confortável na própria pele, sobre construir e redesconstruir sua identidade. É sobre lidar com a própria instabilidade e todos as variáveis externas que enfrentamos ao respirar. 

Por esta razão a literatura permite uma visão panorâmica, seja de uma realidade já disposta ou de alguma que está prestes a ser concebida. Uma visão que vai além da imagem que se tem diante do espelho, pois é através dela que se pode enxergar planos de realidade diversos, assimilações, dissociações; uma visão para além do todo, que é construída e apresentada em cada linha pelo ato de escrever. No entanto, é necessário ter cuidado ao se deparar com os tais dos espelhos permanentes. Porque mais do que certezas, precisamos usufruir do benefício da dúvida para não nos cegarmos diante de um reflexo projetado.

“escrever é pois, ‘mostrar-se’, dar-se a ver, fazer aparecer o rosto próprio junto ao outro”. Michel Foucault (Fucoul)

Até mesmo na ficção nos identificamos prontamente ou buscamos em personagens traços de nós mesmos. Motivação a partir de enredos ali detalhadamente idealizados para que possam ser levados na prática na vida real. 

“Até que ponto a ficção opera na realidade? Até que ponto a realidade opera na ficção? Ambos os casos, tudo é obra da criação; seja por vias da imaginação ou do coração”. {verso autoral, Maio de 2020}

Entretanto, para as prosas não ficcionais que tem no cerne o narrador em primeira pessoa, fica evidente “a suposição de que existe uma certa unidade na experiência humana” (Phillipe Lopate). E sim, ela existe. Porque quando se compartilha pensamentos, memórias, desejos, reclamações e até caprichos ou ainda quando se expõe medos, incertezas e confusões se estabelece um vínculo direto com o leitor. E esse relacionamento é atingido com base na identificação e na compreensão. Porque somos humanos e qualquer semelhança não é mera coincidência. Somos todos iguais e somos todos diferentes. A união que a escrita promove é, em suma, através da vulnerabilidade e da potência que assola qualquer um.

Escrevo, logo sobrevivo! 

Escrever sobre si próprio é olhar-se de fora como se fosse outro, alguém que narra suas próprias memórias; memórias essas que podem muito bem pertencer aos outros, também. Escrever é como descarregar dos ombros (ou da mente) um turbilhão de emoções e saber que existe alguém em algum lugar que compartilha ou simpatiza de alguma forma com aquilo que você escreveu. É o que faz o autor sentir-se menos sozinho, ainda que o caminho da escrita seja singular, e por vezes solitário.

“escrever sobre si mesmo
é enxergar 
a beleza 
e o caos 
a incoerência
e as interferências;
é enxergar 
o mistério
e o ordinário 
a banalidade 
e a curiosidade”. {poema autoral, Abril de 2020)

Escrever sobre si próprio é querer expressar o que poucas pessoas têm coragem/dom/vontade. É sobre querer revelar o que está dentro de um lugar nem sempre acessível, portanto, muito íntimo. Mas também é sobre querer que sua obra seja pública e particular ao mesmo tempo, um dilema que somente os escritores, talvez, dominem de forma menos incômoda e tal qual eu aprendi a lidar. Porque todos nós temos dentro de si um narrador que presencia e vivencia cada momento; que capta, digere, e exprime, à sua maneira, o que acontece diante dos olhos da emoção.

Escrever sobre si próprio é criar mapas de autoconhecimento – muitas vezes acabamos por descobrir tesouros perdidos ou por desbravar territórios desconhecidos que, vejam só, nos levam a incontáveis destinos. No mais, que possamos nos dar cada vez mais oportunidade de escrever para compreender à nós mesmos, as coisas e as pessoas de nosso tempo; do tempo que já passou mais ainda {sobre}vive ou, então, daquele que se foi para sempre. E, claro, escrever sobre o que gostaríamos de ter registrado no futuro que nos espera. Escreva sobre si mesmo.

Obrigada por me ler até aqui. Te vejo na próxima confissão. <3

Larissa Xavier // Literatura Confessional