Jul 23, 2020 • 12M

{Confissão #2} Era pra ser um "book review", mas acabou virando…

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Revelando a interioridade de nosso eu mais profundo através de longas e íntimas narrativas contadas em primeira pessoa; por mim, Larissa Xavier, e por quem quer que queria se confessar. Porque somente a escrita pode libertar o que a vida faz aprisionar.
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Hey, tá vendo esse botão “play” aí em cima? Ele é pra você que está sem tempo de ler o textão abaixo – ou que está com preguiça mesmo :P. Então, ouça esse conteúdo ao invés de ler. Mas sem desculpas pra deixar esse email de lado, ok?


Olá, você!

Bem-vindx a segunda newsletter do Literatura Confessional. No texto de hoje, resolvi confessar minha paixão literária das últimas semanas: o livro “A Elegância do Ouriço”.
Eu amo como a vida nos manda sinais por vezes misteriosos e por outras tão óbvios, claros. O livro no qual falo sobre mais a frente chegou às minhas mãos de forma interessante (leia a news pra saber como!), porque ele veio parar na minha “book list” fazia anos, mas foi só depois que eu me mudei para os EUA que resolvi incluir a versão em inglês do mesmo para ler daqui um tempo. Ainda bem que eu não precisei comprar. Mesmo sempre querendo muito aprender inglês, quando penso em literatura, não encontro versão mais bonita do que os livros publicados em nosso amado e, por vezes odiado, português. Sim, temos inúmeras conjugações verbais e uma gramática complexa, mas a beleza que a língua portuguesa faz com que expressemos sentimentos, emoções… ah, faz com que eu esteja sempre assim, com ar de apaixonada. E ler “A Elegância do Ouriço”, que originalmente foi escrito em francês, me fez resgatar uma paixão para além do idioma, meu resgate por ler romance e ficção.

Bom, sem mais delongas. Espero muito que vocês tenham lido e gostado do primeiro texto, e também gostem do que vem a seguir.

Larissa Xavier

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Era pra ser um “book review”, mas acabou virando…

…uma espécie de relato amoroso por livros & pessoas; histórias. O que no fim é totalmente plausível. E por que não seria?

Certamente eu já devia ter passado por ele várias vezes na vida. Poderíamos ter nos esbarrado numa livraria qualquer do centro ou muito provavelmente na da Cultura, que fica na Avenida Paulista, um dos lugares em que eu mais gostava de me perder no meio de tantas prateleiras. 

Certamente ele poderia ter chegado às minhas mãos no espaço-tempo de 2008, quando foi publicado no Brasil, mas provavelmente eu não estivesse preparada para as lições de vida, e, porque não, literárias que ele viria a me ensinar.

Certamente ele poderia ter chegado a mim bem antes de 2020, mas tenho aprendido que o tempo cronológico é uma invenção feita na tentativa de deixar nossas vidas igualmente mais “organizadas”, ou pelo menos, uma forma que todos têm de medi-las numa métrica universal. Por isso o apego ao calendário tem sido revisto. Venho tentando me descolar mais dessa desgastada premissa e focar mais na métrica que viver o agora traz.

Certamente os caminhos desse encontro poderiam ter sido vários, afinal, se existe mesmo outras realidades acontecendo paralelamente a este momento em que escrevo, eu já tivesse o lido também. Ou eventualmente estaria prestes a ler, pois em todas essas tal dimensões tenho certeza que o gosto por livros já nasceu grudado em minha boca e, meus olhos, já nasceram para enxergar a alma que habita por dentro das palavras.

{…}

Era final de junho quando Marianna (sim, com dois “n’s”), da qual eu não conhecia virtualmente nem tampouco pessoalmente, publicou em um grupo de Facebook (sim, eu ainda o uso, e em casos como este, digo “ainda bem!”) que estava doando uma série de livros. Eis que entre eles estava um que eu gostaria de ter lido há uma eternidade de 12 anos antes: “A Elegância do Ouriço”.

Post da Marianna :)

Primeiramente eu admiro Marianna pelo fato de “doar livros”, porque se tem uma coisa em que eu nunca fui muito generosa com (e me desculpem todos por isso), é me desfazer de livros mesmo os considerados “ruins”.

Minha taurinice tem que se apegar a algo, né? E já que provavelmente eu nunca vou desapegar de pessoas por completo, talvez eu ainda tenha que manter esse hábito meio ultrapassado e egoísta num século como este. No entanto, há uma possível-boa explicação que salve minha pele.

{…}

Tenho pra mim que livros, além de serem escritos por pessoas e para pessoas, no fim são pessoas propriamente; só que ao invés de carne & osso, papel & tinta. Livros são humanos ali retratadas, personagens ali pulsando tentando te seduzir no folhear de cada página, na virada de cada capítulo, no vai e vem de cada frase que conversa com você, seja em forma de toque, de tapa ou de sussurro. Ou mesmo um divã que não pode ser visto a olho nu. 

As experiências de fala e de escuta que a leitura promove são múltiplas, assim como a possibilidade de escolha são muitas. Há muito que levar em conta quando se está a procura de um “bom livro” ou quando o sincronismo literário acontece: você simplesmente se depara com um “bom livro”. Talvez seja por isso que eu sempre achei que recomendar uma obra que tenho pra mim como “fantástica, maravilhosa!”, fosse algo delicado. É como apresentar alguém que você tem certeza que será o par perfeito pra aquelx amigx, que no fim, acaba não curtindo muito o pretendente.

Todos estamos suscetíveis ao encantamento e ao descontentamento, sim, eu sei. Até porque depois que a ponte é feita, cabe aos envolvidos se fazerem atraentes o suficiente. Entretanto, ao passo que conhecemos melhor um possível afeto, devemos tomar cuidado também, pois existe um penumbra ao redor do relacionamento com pessoas ou com livros que os fazem tentar resistir à própria natureza de não se tornarem o que pra alguns é destino certo: o desinteresse. Ou pior, que no caso para os livros, dali há um tempo serão esquecidos e amontados naquela prateleira inalcançável, ou que serão jogados num canto empoeirado qualquer do quarto. Eu luto para que esse estigma não me atinja, porque meus livros são minhas pessoas, e, eu não sei vocês, mas eu costumo cuidar muito bem das minhas pessoas. Só quem já se apaixonou verdadeiramente por um livro sabe do que eu estou falando. E foi o que aconteceu entre “A Elegância do Ouriço” e eu.

Como dizia, o livro já chegou a mim de forma cativante. Sim, Marianna, teve todo o cuidado de deixá-lo bem identificado na portaria do seu prédio bacanudo em Midtown, uma área que além de cara, é repleta de bares com mesas que, apesar de tomarem as calçadas por causa das novas práticas sociais, me lembraram os tempos em que eu andava por São Paulo e observava as pessoas que curtiam a céu aberto em meio ao barulho dos carros passando. 

Bom, parei numa primeira esquina, e escrevi de volta a Marianna avisando que o livro tinha sido retirado e, claro, agradecendo novamente o gesto nobre da doação. 

{…}

Um dia depois estava indo viajar para Boston de ônibus e, logo, minha leitura da vez estava mais do que decidida. Veículos são geralmente um dos meus lugares preferidos para ler, pois eles se tornaram um local de duplo entretenimento: a da viagem externa, com vista para as paisagens ao longo do caminho, e a da viagem interior, a da leitura, que logo suas paisagens se tornam exclusividades minha e de minha imaginação.

Nem o fato de Marianna pontuar que foi só na segunda tentativa de leitura que engatou no romance parisiense, abalaram minhas expectativas. Já nas primeiras páginas fui deliberadamente atacada e rendida por tamanha narrativa e personagens. Não porque seja uma trama agressiva que te pega à força. Pelo contrário. Muitas vezes somos atacados e rendidos pelas delicadezas e que, de tão delicadas, nunca precisam usar a brutalidade para ganhar atenção, mas no fim conseguem o que quer: te envolver.

A jornada entre as personagens principais, a concierge de meia idade Renée Michel e a petulante e rica adolescente Paloma Josse, é arrebatadora. A cada curto capítulo (que favorece muito a leitura mais fluida) elas mostram o quanto é possível extrair extraordinárias observações do que ordinário mascara: as entrelinhas que acontecem no cotidiano de vidas totalmente distintas, no caso em Paris. 

Primeiro, senti que havia mergulhado num oceano de palavras bonitas e frases absurdamente bem construídas para encontrar a tal da “elegância do ouriço”, mas chegando ao fim do livro, na verdade, percebi que havia mesmo era me afogado. Eu não queria mais voltar à superfície. Queria ficar ali, debaixo d’agua, a procurar a beleza do mundo. Os diálogos entre os personagens foram desenvolvidos na tentativa de entender a “existência sem duração”; as comtemplações milimétricas registradas no “diário do movimento ao redor do mundo”; os inúmeros “pensamentos profundos”… “glub, glub”… foi um nado que mudará para sempre minha leitura e o olhar sobre livros.

“A senhora Michel tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes”. (trecho de “A Elegância do Ouriço”)

{…}

Tive um feliz encontro nesse romance ficcionado, que tem bem pouco do romance-romântico que estamos habituados, e muito pouco de invenção, porque tudo ali me pareceu tão verossímil… A ficção também vive na realidade, né? Aliás, pude experienciar alguns dejá-vùs enquanto lia. Quanto mais eu lia, mais eu tinha a sensação que já conhecia a trama. E não foi pela rápida familiaridade com o enredo, mas, sim, como se de alguma forma eu estivesse o relendo e, assim, tendo flashes do que estava prestes a acontecer nas páginas seguintes. Mas, no entanto, quanto mais eu pulava de uma página a outra, mais a sensação de que tudo era novo de novo me tomava.

Fiquei nesse “conforto-desconforto” por todo o passo da obra. Também, pudera! Imaginem ler algo que fale sobre amor, arte, beleza, morte e vida num ciclo tão bonito e tão desmedido em que as coisas se amarram numa facilidade…. Algo que beira a tentativa de achar a perfeição no fluxo das coisas com uma pitada de engrandecimento que só um olhar esmero pela vida pode proporcionar. Até mesmo a tragédia que acontece na trama foi passada pelo filtro da graça. Porque se formos ver por outro lado, viver seja isso mesmo, como Renée disse: “procurar o sempre nos nuncas da vida”.

“A arte é vida, mas num outro ritmo”. (trecho de “A Elegância do Ouriço”)

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Era pra ser um “book review”, mas acabou virando…uma espécie de confissão amorosa por livros e pessoas; histórias. O que no fim é totalmente plausível. E porque não seria? Bom, mas se eu fosse critica literária, minha nota para “A Elegância do Ouriço” seria: ✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺✺ (infinitos ouriços).

Obrigada por me ler até aqui. Te vejo na próxima confissão. <3

Larissa Xavier // Literatura Confessional