Aug 4, 2020 • 15M

{Confissão #4} Estreando a série #BaseadoEmMemóriasReais: "Memória viva, Radiohead e escovar os dentes".

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Revelando a interioridade de nosso eu mais profundo através de longas e íntimas narrativas contadas em primeira pessoa; por mim, Larissa Xavier, e por quem quer que queria se confessar. Porque somente a escrita pode libertar o que a vida faz aprisionar.
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Hey, psiu! Tá vendo esse botão “play” aí em cima? Ele é pra você que está sem tempo de ler o textão abaixo – ou que está com preguiça mesmo :P. Então, ouça esse conteúdo ao invés de ler. Mas sem desculpas pra deixar esse email de lado, ok?


Olá, você.

A newsletter de hoje marca o lançamento da série #BaseadoemMemóriasReais. Se tem um tópico em que vez em sempre eu adoro escrever sobre, são lembranças. Tá admito que um pouco por eu ser naturalmente alguém saudosista (ou seria alguém que aprecia tanto o que vive no presente que mesmo quando ele se torna uma memória eu continuo a reviver/exaltar o que se passou?). Hmm, fica aí a questão, mas ambos os casos, faz parte da rotina do escritor tanto observar e transformar frações de segundos em narrativas que transportam o leitor para [re]viver um momento alheio. Pra alguns pode fazer sentido nenhum, mas pra outros, há diversão nessa jornada. Independentemente do resultado provocado, sempre vale se render ao novo.

A primeira memória dessa série fala sobre um dia qualquer enquanto eu escovava os dentes e fui capturada pela tal da “memória viva”. Ela acontece quando você consegue enxergar novamente — e claramente — um momento passado. Daí você se pergunta, “e o que o Radiohead tem a ver com isso?” Bom, tudo. Porque a banda foi a trilha sonora do momento que descrevo mais a frente.

Vamos embarcar nessa juntxs?

Larissa Xavier // Literatura Confessional

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#BaseadoEmMemóriasReais: “memória viva, Radiohead e escovar os dentes”.

A série “#BaseadoEmMemóriasReais” resgata um momento passado (e nem tão passado assim) e o transforma em uma narrativa espacial, cotidiana, por vezes bem-humorada, romantizada e, por que não, exagerada até demais.

Imagem Por kuuso

Foi logo após eu decidir escovar os dentes. Poucos minutos após o almoço quase sempre me deixa, geralmente, ou com gosto de quero mais pela comida engolida (literalmente), logo, não muito bem degustada, ou pela agonia que pressiona para que eu vá refrescar minha boca de verão; para assim, prosseguir para o turno da tarde com paz no coração.

Como dizia, escovava os dentes e minha cabeça que, diferente de mim, nunca faz horário de almoço — portanto, cumpre sua jornada semanal 24/7 — estava, como de costume, em plena forma fazendo o seu trabalho: pensando, resgatando ou criando novos pensamentos na velocidade da luz. Foi numa dessas que fui iscada pela tal da “memória viva”, que é quando uma lembrança vem tão forte que te transporta novamente para o momento ocorrido em que ela se passou. Geralmente ela dura minutos, mas que são sentidos como a eternidade, esta que nunca tenho certeza se de fato podemos senti-la ou não. Pois bem, surdina é uma das características que marca esse tipo de memória, e como tal, ela vez em sempre passa pra dar um check in na minha mente.

{…}

Eis que enquanto caminhava e minha mão fazia o movimento circular durante a escovação, minha realidade subitamente para pra ouvir um canto. Lá do fundo do meu inconsciente havia um concerto particular do Radiohead tocando Weird Fishes, em alto e bom tom dentro da minha cabeça. Um espetáculo que só tinha eu como platéia — o que é um baita de um privilégio. A música me possuiu mentalmente e corporalmente, e segui embalada pelo o som que, vejam só¹, nunca fui uma das minhas músicas preferidas do disco In Rainbows, que coincidentemente também nunca fui lá muito fã do nome dado, particularmente por não me parecer muito “Radiohead Concept” no quesito nomeação de disco. [Só um adendo: essa observação não muda o fato de eu amar o álbum do começo ao fim. Dos contemporâneos, é o meu preferido. Ou seria o “The King of Limbs”?].

I’ll hit the bottom
Hit the bottom and escape
Escape

trecho de Weird Fishes, Radiohead.

Não sei porque pra mim soa esquisito o tal do arco-íris, talvez porque na minha “radiohead”, o Radiohead é meio dark do que uma cartela de cores vibrantes. Talvez, pra banda, foi uma breve passada no mainstream, que graças a deus nunca fez do Radiohead o mainstream da maioria. E ainda bem. Porque a banda é muito boa pra virar um Coldplay da vida — deus os livre desse destino cruel.

{…}

O Radiohead sempre teve umas composições que conseguem tocar, além dos nossos ouvidos, nossas entranhas. Basta relembrar do hino: “I wish I was special /You’re so fucking special/ But I’m a creep/ I’m a weirdo”.

Talvez ou muito provavelmente, seja por isso que a musica tocou tão bonito em mim que me levou lá pro espaço-tempo de 2009, onde tive a chance de ver justamente o show da turnê “In Rainbows”, que permanece como o único show deles no meu currículo musical.

Foi uma apresentação em que eu tinha muita expectativa, pelo prazer de ver e ouvir a banda que marcara minha adolescência, e pelo prazer de me ver e estar num contexto onde desde o cenário à plateia faziam sentido. Até, vejam só², tendo a abertura do show com os Los Hermanos (ou nem tanto sentido assim) que, dentro do previsto, abraçou a gente com versos badalados. Já o Kraftwerk, que veio logo depois, deu aquela injeção eletrônica que faz você ficar vivo pra ver o que acontece no after, ou seja, foi o sinal que depois dali eu realmente teria um.

Fazia tanto sentido que era 22 de março de 2009. Segunda noite de outono e que não-coincidentemente marcava o Ano Novo Astrológico, que é quando o sol entra em Áries. Sim fazia total sentido. E nessa sinfonia em sintonia com o místico que embalava o ambiente todo, o show acabou muito mais tarde do que o previsto — o que é bom na hora e ruim depois. Bom porque o que um adolescente mais quer são horas intermináveis de algo que, no mínimo, deveria durar uma eternidade no tempo da terra, mas ruim, se você é uma adolescente de 19 anos (como era meu caso) que usa transporte público em São Paulo e saiu de um rolê mais de meia noite e tem que correr com sua galera pra pegar a última van lotada que vai pro terminal de ônibus mais perto de sua casa. Nesses casos sempre fico com a sensação de que o “ruim” tem esse lado duradouro quando se trata dos efeitos colaterais de um momento. Anyway.

{…}

Chegamos na metade do caminho da volta pra casa e, claro, que a noite estava só começando. Como se não bastasse toda a ressaca musical, eu ainda tivera que permanecer naquele terminal até quase 5 de manhã a espera do primeiro ônibus que viria no dia seguinte, que na verdade já havia se tornado o “dia seguinte”, pois já se passava da meia noite. Então, ali eu já estava em 23 de março. Que, no entanto, meu relógio biológico insistia em negar este fato, visto que o dia seguinte só se torna presente pra mim depois que eu dormir e acordar, e ver no calendário o dia ali datado sorrindo com aquele sorrisinho pífio — especialmente quando ele cai numa segunda-feira.

Vale relatar que horas antes da apresentação, eu me lembro de estar tão ansiosa que não tinha conseguido almoçar, nem tampouco comer qualquer migalha durante o show. Isso porque entre aquela galera que me acompanhava estava alguém que há muito, muito tempo, havia me roubado, além do coração, o estômago, e como nós bem sabemos, o amor deixa a gente sem fome de comida. Porque, no caso, só se mata a fome, amando; até porque quando a fome de amor bate em forma de ansiedade, não há lasanha que seja páreo em dar água na boca do que o beijo de quem se ama. Ah, o amor é um verdadeiro tira-apetite.

Assim lá eu me encontrava: faminta e com frio. Frio porque no outono paulista a temperatura opera da seguinte maneira; faz aquele calor ardido durante o dia, e a noite, em contrapartida, há aquelas brisas tão geladas que arrepiam até as costuras soltas. Ou seja, nem meu look total black que usei dos pés as cabeças não fora suficiente para poder aquecer minha costas que estavam praticamente nuas por causa de uma blusa de cetim cavada que deixava boa parte de minha pele à mostra. — Eu sempre soube que cetim era um tecido duvidoso de proteção corporal.

{…}

Foram 5 horas triviais lutando contra o frio, a sede, a fome biológica e a fome amorosa de alguém que, diferente de mim, claramente estava sem apetite nenhum — pelo menos do amoroso do qual eu almejava.

Quando deu o horário, quase 5 da manhã, parecia que eu ouvia de longe os sinos de Belém. Ou o que seria o alarme da minha mãe acordando e não me achando debaixo do edredom. Eis que ônibus chega e nele se abre o que seria um portal rumo a dimensão onde aquele longo dia e noite passariam a não existir mais — pelo menos não no presente que estava prestes a a ter outra cara. Pegamos o ônibus finalmente. Entretanto, tive que voltar justo passando vontade, pois ao meu lado, sentava aquele que poderia ter matado minha fome de amor, de frio e de um romance que eu esperava ter acontecido. Se bem que eu não achei ruim não, pois como uns dizem, têm coisas que são feitas só pra olhar mesmo — e o alimento que sacia o amor muitas vezes se inclui nesta lista também. Infelizmente. 

Durante o entre e sai de uma rua e outra, notei que a fome física e emocional já havia se esvaído e eu estava focada mesma era naquele trajeto, que de cerca de 30 minutos, durasse uma certa eternidade. E de fato durou uma eternidade de 30 minutos pra me fazer feliz só ali, observando a paisagem de fora e de dentro daquele busão, que de desconfortável não tinha nada aos olhos de um apaixonado.

{…}

Descemos no mesmo ponto, já que minha mãe iria me buscar, como tal adolescente que era. O abraço de despedida foi a parte mais difícil, na verdade sempre era, pois vivíamos dessas despedidas que nunca passavam por uma métrica regular. No fim, melhor do que desejar novos encontros, era melhor que eu desejasse novas despedidas, pois assim eu sentiria com o meu corpo que o encontro havia acontecido. 

O abraço é o registro das despedidas que se despedem dos encontros.

Ai, pois é, tudo aconteceu em 2009, quero dizer, num flash de uma memória viva que durou pouco mais de 2 minutos. O mais intrigante não foi somente poder relembrar, mas sim, que essa memória viva tenha vindo me re-visitar na mesma noite em que durante o dia eu escovava os dentes após o almoço. Se é que isso faz algum sentido.

{…}

2020 esse ano torno, louco, capenga; noite de julho. Enquanto meu marido e eu acabávamos de assistir ao episódio final da série Dark que, vejam só³, fala justamente sobre time travel, black holes, romance, escolhas, possibilidades da vida, dimensões…. 

Assim que acabou, eu rapidamente decido ligar para discutir o desfecho com uma amiga. Enquanto falávamos e discutíamos sobre os desdobramentos de 3 anos acompanhando uma série que é decerto tão complicada quanto a origem do universo e toda essa prosa aqui contada, meu marido que, ao meu lado da cama dominava o controle remoto, resolve por ele mesmo colocar uma trilha sonora para embalar toda aquela confabulação.

Ah, vejam só⁴. Sem saber de nem um terço do que tinha se passado na minha cabeça naqueles 2 minutos enquanto eu escovava os dentes mais cedo (não que ele deveria), ele põe pra tocar sem me perguntar JUSTAMENTE WEIRD FISHES. Ah, mas vejam só⁵!

“Tivera eu um déjà-vu instantâneo? Teria ele lido minha mente? Teria eu enviado um sinal mental ultratecnológico para que ele soubesse o que eu gostaria de ouvir exatamente?”

Ah, quer saber? Pra esse tipo de assunto, eu já sou crente. Há mensagens subliminares que só o universo se encaminha, da sua forma, de nos enviar, e da maneira que ele bem entende. Na maioria das vezes sem fazer sentido realístico algum. Mas daí eu vou e questiono: o que é a realidade mesmo, na prática?

Apesar que se tratando da bizarra-apurada conexão que mantenho com ele, meu marido, não era de suspeitar que de alguma forma ele fosse o receptor e o mensageiro desse tipo de recado. Sei lá. Só sei que imediatamente após aquela ligação, corri para escrever o que eu acabara de experienciar.

{…}

Bom, se toda vez que uma trivial escovação de dentes me proporcionar escrever deliberadamente como acabei por fazer, talvez eu aumente esse habito tão precioso durante o dia. Mas capaz que o universo saque e transfira esse tipo de memória viva toda vez que eu parar pra […]? Ah, não quero pensar nisso logo agora que tenho que ir escovar os dentes de novo.

Obrigada por me ler até aqui. Te vejo na próxima confissão. <3

Larissa Xavier // Literatura Confessional